quinta-feira, 9 de março de 2017

SHOW DO KREATOR + SEPULTURA + SOILWORK + ABORTED - LONDRES

    Durante uma viagem de férias na capital mundial do Rock N'Roll, tive a sorte de poder assistir um dos shows da aclamada tour europeia do Kreator. Para completar, a tour segue aquele padrão europeu de reunião de várias bandas relevantes na cena. Eram elas Sepultura, Soilwork e Aborted. Ou seja, se tratava de um mini festival. Não tinha como ser melhor. 
      A experiência de poder ver um show longe do seu país e perceber semelhanças e diferenças com ele é fantástica. O que se percebe de cara é o tamanho que essas bandas tem no velho continente. A casa tinha, de acordo com meu famoso "olhômetro", no mínimo 3 mil pessoas entupindo cada espaço dela. E era imponente aquele O2 Forum. Ele fica localizado próximo a Camden, o bairro mais Rock N'Roll de Londres, que possui uma cena incrível nas noites da cidade ao redor do incrível pub The End of The World. O local do show é um verdadeiro casarão que nada tem a ver com alguns de nossos buracos daqui. São diferentes níveis na própria pista, além do 2o andar, como uma decoração de teatro de elite no Brasil. Assisti tudo direto do mosh pit, esse sim exatamente igual ao nosso em nível de agitação. Uma peculiaridade dele certamente vocês já notaram em transmissões de todos os festivais. Sempre tem alguém o chamado surf crowding, inclusive com segurança atento pegando cada cidadão que voa pela galera e recolocando na pista. Quando dei por mim, fui um deles no show do Sepultura. Em linhas gerais, era um público fiel que idolatrava principalmente Kreator e Sepultura. Headbanger é headbanger em qualquer lugar. 
     A parte do Sepultura merece uma citação breve. Tudo que sempre ouvi falar da banda acontece de fato lá fora. Os ingleses tem verdadeira adoração pelo nosso maior expoente do Heavy Metal. Mesmo com tudo que aconteceu, a banda ainda consegue rivalizar com o Kreator em camisas, o que não é pouca coisa. No show, todos tinham os clássicos na ponta da língua, e inclusive pediam outros fora do set, como Troops of Doom por exemplo. Foi seguramente um momento que o orgulho de ser brasileiro explodiu no meu peito. Agora vamos aos shows em si. 
     A chamada pontualidade britânica realmente existe na prática. Cada apresentação foi rigorosa, o que não é fácil em um show desse tamanho. No Aborted, a casa ainda não estava em sua lotação máxima, contando com um público mais calmo em relação ao que estava por vir. Na hora h, mostraram o motivo de tanto prestígio. Um dos grandes sopros de renovação no Death Metal, os belgas desfilaram brutalidade em cerca de 40 minutos de show. O carequinha Sven "Svencho" sabia mexer com o público, sendo sempre atendido. Das oito músicas, eram quatro do mais recente disco Retrogore, mostrando que eles queriam mostrar para quem não conhecia o que é a banda hoje em dia. Claro que coisas como  Hecatomb e Meticulous Invagination não poderiam faltar. Enfim, a banda passou muito bem seu recado na abertura dos trabalhos. 
    O Death melódico do Soilwork nunca me chamou muita atenção, mas o show deles superou todas as minhas expectativas. Não é uma banda que conheço a ponto de poder avaliar muito bem seu repertório, mas num palco como aquele, os suecos crescem bastante. Eles já contaram com a casa lotada e extremamente receptiva ao seu som. A formação mostrou técnica apurada feita para shows maiores. A noite estava válida já ali.  
    Depois de duas grandes bandas relativamente novas, era chegado o momento dos dois gigantes do Thrash Metal - com mais de trinta anos nas costas - mostrarem sua relevância em 2017. O Sepultura não foi tratado em momento algum como "abertura". Para os presentes, eles eram co-headlines da noite. Eloy Casagrande (bateria), Andreas Kisser (guitarra), Derrick Green (vocal) e Paulo Xisto (baixo) já provaram em jornadas anteriores como a atual formação do Sepultura é forte ao vivo e no estúdio. A turnê tem como objetivo promover o bom Machine Messiah. O set mostrou isso, mesmo relativamente curto, com 5 músicas novas muito bem recebidas por um público que se curvava a história da banda. A abertura foi logo com duas delas, I Am the Enemy e Phantom Self - mais que aprovadas no teste do palco. Choke foi a outra representante dos "anos Derrick" além das novas, voltando ao hoje já distante Against (consegue perceber que o 1o disco com o americano já tem quase 20 anos?!). Então o público explode de vez com a mais que clássica Desperate Cry. O mosh pit era intenso, sempre com aquele "Seputhura" no melhor sotaque Inglês gritado a cada intervalo. Depois da breve volta no tempo, chega a hora de mais duas novas. Alethea e Sworn Oath mostram os bons atributos do novo trabalho, que ao meu ver passa longe de ser clássico como alguns falam, mas tem sim muita qualidade. Ai um verdadeiro hino que atende pelo nome de Inner Self instala o caos Inglês, voltando ao disco que fez o mundo se curvar diante desse entidade chamada Sepultura - Beneath the Remains. Resistant Parasites encerra a participação do novo disco na noite, que segue com uma sequência inevitável de hinos da banda. Tome Refuse/Resist, Arise, Ratamahatta e o obrigatório encerramento com Roots Bloody Roots. Ovacionado, o Sepultura parece cada vez mais disposto a viver do presente, mas obviamente celebrando também os discos que fizeram ele ser o que é. O público Inglês mostra enorme respeito com a banda atual sempre que pode, e ganhou uma grande apresentação dos brasileiros. Na minha viagem, foi um grande momento de celebração da minha terra ao lado de alguns brasileiros que pude encontrar ali, sentindo exatamente o mesmo que eu.
     Ai vem aquele breve intervalo para reconstrução das forças para nos curvarmos diante da lenda alemã Kreator. Depois de lançar o fantástico Gods of Violence, mais uma vez Mille Petrozza (guitarra e vocal), Jürgen Ventor (bateria, vocal), Christian Giesler (baixo) e Sami Yli-Sirniö (guitarra) chegam para promover a tradicional destruição. E fazem isso com uma estrutura de palco fantástica. Tinha fogo, explosão, fumaça, papel picado, serpentina e muito mais, algo raro em shows de Thrash Metal. Mais do que isso, teve um público nas mãos que sempre respondia a convocação para o mosh pit - tradição da lenda Mille Petrozza ao longo do show. Assim como na última turnê, o Kreator segue dando uma atenção enorme aos lançamentos posteriores a Violent Revolution na hora de formar seu setlist. Não tem como reclamar, já que as mais recentes trabalhos são fantásticas e o resultado ao vivo é sempre indescritível, seja no Carioca Club ou no O2 Forum.
    A abertura vem com a ótima e já permanente no set Hordes of Chaos - um dos refrões mais fortes da banda. Phobia vem representando os controversos anos 90, mas se é para lembrar de algo relevante feito ali, que seja esse sensacional som. Ao vivo ela cresce muito, e sempre acaba se tornando um dos momentos mais interessantes do show. Com esse começo sensacional, já era jogo ganho para mostrar algumas novidades de Gods of Violence. Nesse momento, dei uma corrida no banheiro para tentar dar um jeito no sangramento no nariz proveniente de um esbarrão sutil no mosh, mas mesmo mais de longe é possível notar como Satan Is Real chega imponente no palco. Então Gods of Violence vem para provar de vez como a banda esteve inspirada num disco que já de cara pode ser apontado como um dos melhores de 2017. A grande forma de estúdio sempre passa para o palco, e nesse assunto, poucos dominam como o frontman do Kreator. Além da voz inconfundível e das palhetadas certeiras, ele sabe como e quando falar com o público, botando ainda mais fogo na explosão em forma de roda que toma conta da pista.
     Ai chega o momento de fazer uma viagem no tempo até os anos de ouro do Kreator. O hino definitivo People of the Lie é a única representante da obra-prima Coma of Souls. A que é para mim a melhor música da carreira do Kreator tem cada verso urrado tanto pelos fãs mais novos quanto pela turma old school. Para arrematar de vez, vem a mais grata surpresa do set. Total Death, uma verdadeira pérola da destruidora estreia que atende pelo nome de Endless Pain vem para arrepiar qualquer um que tem o Thrash Metal no coração. Urrar versos como "Try to run or hide from the death" junto com Petrozza é um verdadeiro sonho para qualquer fã do estilo. Facilmente essa dupla pode ser apontada como o maior momento da noite. Em sequência vem a faixa título de Phantom Antichrist, que mesmo não sendo o disco da tour, ainda tem enorme espaço no setlist. Quando ele começa a "envelhecer", da para sacar de fato qual é a dele, e o tempo vai eternizando o mesmo como um dos grandes trabalhos do Kreator. É a deixa para a fantástica nova Fallen Brother, com aquele clipe sensacional em homenagem a grandes nomes da música que nos deixaram. Ele engrandece ainda mais esse som simplesmente único. Enemy of God, outra dos tempos mais recentes já com lugar cativo no set, deixa forte o discurso da banda contra os abusos polítocos e da igreja - sempre lembrados por Mille antes de toca-la. From Flood into Fire, mais uma maravilha de  Phantom Antichrist, faz por merecer ser novamente lembrada na tour seguinte. Boa deixa para World War Now, a pedrada que abre o novo trabalho como um de seus grandes momentos. Já Hail to the Hordes
eu achei um tanto forçada para o momento, fazendo muitos pararem rapidamente para tomar um ar. Para ficar no disco novo, eu teria escolhido Totalitarian Terror por exemplo. O momento pedia um clássico, e ele veio com a indispensável Extreme Aggression, que colocou fogo na pista. Então Civilization Collapse, a melhor de Phantom Antichrist, mantém a empolgação para fechar a parte regular do show. Então Violent Revolution abre o bis para celebrar o marco que é na história da banda - um verdadeiro renascimento de uma lenda. Para fechar a conta, é hora de clássicos oitentistas. Com a tradicional bandeira em punhos, Mille anuncia a irresistível Flag of Hate, num medley com a gratíssima surpresa Under the Guillotine - uma pérola escondida em Pleasure to Kill. Como não tem cabimento o Kreator deixar o palco sem tocar seu maior clássico, cabe a Pleasure to Kill fechar um grande show de Thrash Metal. 
     Nessa nova turnê, o Kreator celebra sua história sem ficar preso no passado. A banda valoriza muito o que foi feito nos discos mais recentes, e em cima deles forma a base do setlist. Mesmo sentindo falta de coisas como Coma of Souls, Endless Pain ou qualquer uma do esquecido Terrible Certainty, não tem como reclamar de um show como esses. Além da sempre grata experiência de ver uma banda como o Kreator em ação, poder compartilhar isso num país tão distante é ainda mais gratificante. Da terra da rainha, só tenho boas lembranças, e a prova de que headbanger é igual em qualquer lugar do mundo - uma paixão sem fronteiras. 


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

KREATOR - GODS OF VIOLENCE

       Desde que lançou o ótimo Violent Revolution em 2001, o Kreator vive uma fase sólida. Podemos considerar ela uma espécie de fase 3, que usa toda a fúria Thrash Metal dos primeiros anos, mas de uma forma menos suja e direta, e sim com doses melódicas misturadas. Desde então, a banda da um certo intervalo para cada lançamento, compensando com extrema qualidade em cada detalhe deles - inclusive formando um set com muitas músicas mais recentes. Gods Of Violence é mais uma obra fantástica do Kreator, uma banda que se recusa terminantemente a envelhecer. 
       A abertura com World War Now não poderia ser mais espetacular. Show de riffs e batidas precisas na introdução, explodindo num refrão fantástico com aquela voz única de Mille Petrozza dando todo o peso que a música merece. Com Satan is Real, que chega numa formula de repetição do refrão para arrepiar o ouvinte, deixa o nível o mais elevado possível. Dois clássicos imediatos. Totalitarian Terror, num agudo daqueles de Mille para começar por cima uma letra espetacular e pertinente para os dias atuais, e a faixa-título conseguem uma sequência de clássicos (isso mesmo, CLÁSSICOS) para eternizar o trabalho. Os veteranos Ventor, como sempre arregaçando seu kit, e Mille seguem ditando as regras ao lado dos já plenamente estabelecidos Christian Giesler (baixo) e Sami Yli-Sirniö (guitarra). O trabalho dos dois guitarristas aqui é digno de uma dupla entrosada há tanto tempo, sendo um dos melhores desses mais de trinta anos de história da banda. O Kreator tem na formação de 16 anos um dos segredos para tanta coisa boa saindo em sequência. A épica Fallen Brother é outro destaque absoluto do trabalho, assim como seu clipe que presta homenagem a gigantes do Rock que lamentavelmente não estão mais nesse plano. Death Becomes the Light chama atenção pelo começo melódico que depois explode numa porrada Thrash daquelas - um efeito sempre ótimo. Army of Storms, Hail to the Hordes, Lion With Eagle Wings e Side By Side também merecem audição, mesmo não tendo o nível tão extraordinário quanto o das já citadas. 
         Neste começo de ano, o lançamento de mais uma obra fantástica do Kreator faz muito bem ao Heavy Metal em geral. Sempre é interessante ver um gigante em grande forma como é o caso desse baluarte alemão, terra que sabe fazer Thrash Metal como poucas no mundo. Gods of Violence é o sucessor que Phantom Antichrist pedia, nascendo com ao menos cinco músicas com total potencial para ser consagrada como clássico no futuro. Até o título é totalmente apropriado para o que representa o Kreator, banda que continua honrando o nome que tem nesse inspirado século XXI.




terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ALGUNS MOMENTOS DE DIÁLOGO ENTRE O ROCK N'ROLL E OUTROS ESTILOS

    Poderia falar sobre o assunto mais comentado do momento no mundo do Rock citando as pataquadas históricas do Grammy - que não são poucas. A verdade é que a música pesada nunca foi levada muito a sério pela premiação. Desde uma bizarra "estatueta" de melhor performance Heavy Metal entregue ao fantástico, mas Progressivo Jethro Tull - que venceu o Metallica na ocasião -, passando pela ignorada solene dos falecimentos recentes de gente do porte de Jeff Hanneman e Nick Menza até o show de horrores que foi a edição desse ano. Sim, é inadmissível que se cometa uma gafe do tamanho de uma Master of Puppets "anunciando'' um prêmio para o Megadeth e os problemas amadores que simplesmente arrebentaram com o show do Metallica. Ainda com todo esse currículo, acho que vale a pena falar do show acima dos problemas. 
       Muito se comentou a respeito da apresentação do Metallica com a estrela Pop Lady Gaga. Tudo ficou dividido entre elogios e críticas (na maioria das vezes muito bem elaboradas, fugindo do chororô tr00 que por vezes acontece). Eu fico com os que gostaram, mesmo respeitando os muitos que acharam que a combinação não saiu como esperado. A verdade é que se era pra chamar uma estrela Pop para um dueto, a garota era a pessoa certa. Talentosa pra cacete, consegue fazer o melhor que o estilo representa, algo que 99% dos pares não faz. Nunca acompanhei seu trabalho a ponto de comprar discos e ir em shows, mas sei reconhecer quando a coisa é bem feita e quando não é. A ideia era claramente dialogar dois universos hoje tão distantes, e pelo que vi, deu muito certo.
        Além disso, ela tem um amor incondicional por Rock N'Roll. Já foi vista com integrantes de bandas como Iron Maiden, Saxon, Judas Priest, Kiss e Rolling Stones, vive indo a shows quando possível, e na noite da premiação estava radiante a tal ponto que registrou uma tatuagem para lembrar pra sempre do dia em que tocou com o Metallica, citando essa apresentação como um dos maiores momentos que já viveu no palco. Na apresentação, não da para negar que o microfone fudido de James Hetfield atrapalhou muito, mas como gênios que são, tanto a banda quanto a cantora deram um jeito de passar por cima e mostrar um resultado bem legal. Se ela se empolgou demais numa performance excêntrica, todos sabem que isso está incluso no pacote dela. 
        Agora voltando no tempo, podemos lembras de algumas parcerias épicas entre o Rock e outros estilos. O mais clássico é com o Rap. Se o Aerosmith passou pelos grandes momentos noventistas, muito se deve a lendária parceria com o Run DMC, um dos maiores nomes da história do Rap, na releitura do clássico setentista Walk This Way. Uma banda que passava por poucas e boas ao longo dos anos 80 estava pronta para voltar de vez para o topo, bastando responder com Permanent Vacation e Pump por exemplo. Outra parceria de gigantes que fez sucesso naqueles tempos foi do Anthrax com o Public Enemy em Bring the Noise. Para citar um único artista que conseguiu transitar entre os dois universos com brilhantismo, não podemos esquecer de Ice T. O Rapper que já tem uma carreira enorme no estilo ainda fez questão de formar o Body Count, fazendo com a banda uma barulheira das boas. Isso para não citar certos Faith No More e Rage Against The Machine, bandas que conseguem por si só promover uma belíssima mistureba.
        Voltando ao Pop de Lady Gaga, é impossível falar do estilo sem citar o seu maior nome. Michael Jackson concentra tudo que existe de melhor na música Pop em um único nome. O gênio não abriu mão do Rock N'Roll em alguns de seus momentos mais brilhantes. Em Beat It, talvez um dos seus três maiores clássicos, os dedos mágicos de Eddie Van Halen na guitarra ajudaram em muito no tamanho da música. Com Slash, o astro repetiu a dose em Black or White, outro enorme clássico. 
    Enfim pessoal, esses são alguns exemplos de como gênios de estilos diferentes sabem dialogar no palco pelo simples fato de serem muito bons no que fazem. No caso mais recente, uma avaliação melhor só seria possível num show onde a aparelhagem não atrapalhe tanto quanto foi agora, mas no que foi possível eu vi a voz de Lady Gaga caindo muito bem com a música do Metallica. Se essa parceria pode ir para frente numa outra oportunidade, vamos ver o que o tempo diz, mas o palco deu sinal verde no meu modo de ver. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

SHOW DO TITÃS - CIRCO VOADOR - RIO DE JANEIRO

     Uma banda que começou com nove integrantes há mais de 30 anos, aos poucos enxerga sua formação original cada vez mais curta. Por anos, as substituições eram feitas com nova distribuição de tarefas dentro da própria banda, mas com a saída de Charles Gavin, os veteranos foram obrigados a renovar a frota com Mario Fabre. Agora para preencher a enorme lacuna deixada por Paulo Miklos, o escolhido foi o guitarrista Beto Lee - tendo as músicas cantadas por Paulo agora divididas entre os que sobraram. Cabe então ao trio original Sergio Britto, Tony Bellotto e Branco Mello manter a chama de uma das grandes bandas de Rock do Brasil acesa. Um dos primeiros grandes testes seria no palco, de frente para um fiel público carioca que lotava cada espaço do Circo Voador. 
      Depois da abertura do caricado Supla, que teve seu nome gritado por todos depois de fazer a turma dançar e cantar alguns de seus hits oitentistas e clássicos de Beatles e David Bowie, era hora de ver a nova formação dos titãs em ação. Com um Beto Lee tocando fácil, mas ainda muito contido no canto do palco, os veteranos entraram com gás e um repertório escolhido com precisão para começar o baile. 
       Para já chegar com força, vem a faixa-título do grande disco dos Titãs - Cabeça Dinossauro. Para manter o clima, o riff sensacional de Diversão é cantado como de costume, assim como a ótima letra. São amostras dos tempos de ouro dessa grande banda. A pedrada AA UU bota todos para pular, seguida por A Melhor Banda de Todos Os Tempos da Última Semana - uma das poucas que salva do trabalho de mesmo nome. A chapadona e sensacional O Pulso e o tradicional cover para Aluga-se de Raul Seixas - precisamente dedicada ao povo mexicano - marcam um começo fantástico de show. Ai vem as gratas surpresas da noite. O espetacular e por muitas vezes esquecido Titanomaquia foi lembrado com a pedrada Será Que É Isso Que Eu Necessito - o grande momento da noite - e Nem Sempre Se Pode Ser Deus. Ver um Sergio Britto encenando crucificação com o pedestal do microfone em alusão a parte da letra foi a cereja do bolo. A clássica Sonífera Ilha bota a turma oitentista para dançar na lona, seguida pelas únicas novas (já não tão novas assim) Fardado e Chegada ao Brasil (Terra a Vista) - vindas para provar o poder de fogo de  Nheengatu. Os clássicos Televisão e Lugar Nenhum colocam um ponto numa sequência inicial espetacular. 
    Já era possível sacar qual era a desse novo Titãs. Sergio Britto e Branco Mello foram bem fazendo partes originais de Paulo, mas não tem como não sentir falta de um cara desse tamanho. Com isso já em mente, a nova versão da banda conseguiu dar conta da bronca. Beto é um ótimo músico, e se encaixou muito bem com Bellotto. Sim, ainda não está muito a vontade no palco, mas com o tempo isso vem. O guitarrista original então vem ao microfone saudar o público e fazer a grande novidade da noite. Pela 1a vez na história da banda, Tony Bellotto assume o vocal, e não decepciona com a mais ou menos Pra Dizer Adeus - dedicada a sempre presente esposa e global Malu Mader. Foi o início de uma sequência, ao meu ver, desnecessária daqueles sons mais "calmos" que tantos frutos renderam a banda ao longo dos anos. 
     Tome a insuportável Epitáfio, a versão diferentona para o clássico do Barão Vermelho Pro dia Nascer Feliz e as antigas e chatíssimas Go Back e Marvin. Entendo as escolhas por ter muitos ali querendo ouvir, mas não me cai bem. Ainda assim, méritos para a banda que conseguiu montar um set que agrada todo seu público para lá de heterogêneo. Passado isso, é hora da sequência final com grandes clássicos da carreira. Homem Primata, Polícia e Flores encerram a parte regular da brincadeira. Para o bis, uma banda feliz retorna para cantar a sensacional Desordem, sua música mais legal e eternamente atual. Bichos Escrotos, cantado a capela pelo público em todo o intervalo, chega com o reforço de Supla no palco - que basicamente fez figuração. A não menos atual Vossa Excelência fecha a conta de uma grande noite de Rock N'Roll.
      Ninguém sai impune de uma troca tão grande na formação, mas o novo Titãs ainda sabe fazer um grande show de Rock. Banda com porradas sensacionais e muita história, somada a uma ou outra baladinha chata, soube escolher coisas do agrado de todos os diferentes fãs que sempre respondem ao chamado para qualquer show. O Circo virou a casa carioca nos últimos anos, num casamento espetacular. O Titãs passou bem pelo teste do palco, agora é ver se Nheengatu terá um sucessor a altura. 

       

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

PINK FLOYD - ANIMALS

     Há exatos 40 anos, David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright colocavam nas prateleiras das lojas o clássico Animals. O trabalho tinha a enorme responsabilidade de suceder coisas do porte de The Dark Side of the Moon e Wish You Were Here - discos que obviamente colocaram o Pink Floyd no máximo patamar do Rock. Para tal, a banda não fez questão nenhuma de fazer algo de fácil assimilação. Tirando as duas Pigs on the Wing, que fazem introdução e encerramento de Animals, o disco apresenta três únicas músicas com duração superior a 10 minutos. Ainda assim, algo de tamanho nível de excelência não poderia dar errado. 
     A identidade sonora encontrada nos trabalhos recentes foi mantida, com doses cavalares de criticas sociais sobre a realidade inglesa da época. Todo o conceito de Animals fica claro dentro da própria capa, com o clássico porco voador entre duas das chaminés da Usina Termelétrica de Battersea, localizada em Londres. Desde então, Waters inclui o porco em todos os seus shows solos com críticas sempre pertinentes ao momento mundial. Não seria diferente com a eleição de Donald Trump, que contou com a apresentação do clássico Pigs (Three Different Ones) numa "homenagem" ao lamentavelmente agora homem mais poderoso do mundo. 
     A canção é um dos ápices do trabalho, assim como da carreira da banda. Agora se for para apontar o grande momento de Animals, eu fico com a magnífica Dogs, do alto de seus 17 minutos de duração. Nela, o Pink Floyd apresenta tudo que sabe fazer de melhor. Solos no padrão Gilmour de qualidade, letras e melodias que só Waters sabe fazer e toda a virtuose do quarteto nos mínimos detalhes, sem deixar a peteca cair por um segundo sequer. Sheep não deixa por menos, e apresenta uma explosão sonora depois da intro que arrepia qualquer fã da banda a cada audição. Não precisava de nada além disso para fazer de Animals um dos discos mais importantes da história do Rock.
     Em pleno 1977 - o ano do Punk Rock naquela mesma Inglaterra - o Pink Floyd não teve medo de apostar pesado no progressivo clássico, que naquela altura já tinha consagrado o seu nome na história do Rock. Da sua maneira, fez críticas precisas num trabalho irretocável e bombástico, que depois de 40 anos ainda consegue impressionar a cada audição. Com Animals, não houve nenhuma guinada ou revolução numa banda que já tinha alcançado vendagens recordes, mas os ingleses não perderam tempo em mostrar do que eram capazes em um trabalho indispensável e magnífico.  


sábado, 14 de janeiro de 2017

SHOW DO ONSLAUGHT - PLANET MUSIC - RIO DE JANEIRO

    A clássica e sensacional banda de Thrash Metal Onslaught finalmente estreou no Rio de Janeiro, depois de inúmeras passagens pelo Brasil e muitos shows pensados para a cidade que não saíram do papel. Os ingleses vem prestando tributo a um dos seus melhores discos, The Force, que completou 30 anos de lançamento ano passado. Além de tocar sua íntegra, ainda rolariam mais algumas músicas de toda a carreira da banda. 
     Infelizmente, o nosso cenário oferece inúmeros desafios para quem se aventura a produzir shows assim. Com isso, a No Class - que tem a turma do Lacerated And Carbonized fazendo um trabalho sensacional para movimentar a cena - não teve alternativa viável que não fosse a acanhada casa Planet Music, e não tem como começar a falar do show sem listar os problemas dela. A localização não é ruim para chegada e saída. O problema é a casa mesmo. Para começar, não existe ar condicionado, e estamos no auge do verão carioca. Com isso, o calor fica insuportável tanto para banda quanto para o público. A estrutura básica é da pior qualidade, principalmente quando falamos do banheiro. Nunca estive no camarim, mas o que muitos falam é que ele é simplesmente podre. Outro ponto muito criticado por quem já tocou lá é a estrutura de palco para equipamentos e tudo mais, o que causa um atraso quase certo em qualquer show. Enfim, uma banda que chega diretamente da Inglaterra e cai de cabeça no auge do underground carioca fatalmente tem sua apresentação prejudicada - ainda que o som estivesse muito legal durante todo show para quem estava na pista. 
      Os problemas começam no tradicional atraso, causado pelos mais diversos problemas. A diferença é que ali não estavam as bandas brasileiras já acostumadas com os problemas que locais assim oferecem, e sim uma inglesa dando início a uma tour de 20 shows em 20 dias, com viagens continentais no meio. Só para lembrar, o show seguinte é em Belém, com voo de quatro horas até lá. Ou seja, não ia rolar de começar depois de meia-noite algo programado para 22h. Então a tradicional inversão de headline ocorreu, prejudicando as aberturas, que acabaram por tocar depois da atração principal. Nessa dai, muitos acabaram entrando com o show já em andamento, e o público visivelmente aumentou bastante ao longo da apresentação. A força de vontade da produção merece ser reconhecida. Não é fácil fazer algo acontecer naquela casa, e quando se pensa em outra mais estruturada, é quase garantia de prejuízo em show assim por diferentes fatores. 
       Ainda com a casa vazia pelos que não sabiam que o Onslaught entraria de cara, Sy Keeler (Vocal), Nige Rockett (Guitarra), Jeff Williams (Baixo), Iain GT Davies (Guitarra) e Mic Hourihan (Bateria) fincaram seus pés no palco do Planet Music. Uma coisa é indiscutível. A banda é de um profissionalismo ímpar. A situação caótica do lugar não impediu eles de tocarem sem deixar passar para o público os problemas. Passando o repertório de The Force a limpo, a abertura do disco e do show fica por conta de Let There Be Death, a pérola de seu repertório. Uma banda underground por excelência se vê diante de uma casa ainda vazia, mas toca como se estivesse no palco mundo do Rock in Rio. Seguindo por cima, é hora de Metal Forces, outra devastação sonora. Fight With the Beast, daqueles Thrashes por excelência, causa um estrago nos pescoços dos presentes. Até então a banda vai levando o show sem deixar passar os problemas ao público. Lá pelas tantas, no momento que a banda tocava Demoniac, boa parte do público entra na casa, e o panorama da pista vai ficando cada vez mais satisfatório. A banda que já vai demonstrando dificuldades. Flame of the Antichrist é quase uma tradução do que todos sentiam naquele verdadeiro forno, e o vocalista Sy Keeler é o primeiro a acusar o golpe. O show para por alguns instantes, enquanto o resto da banda ainda está no palco. É bom lembrar que o instrumento do vocalista é seu corpo, é não é simples para um sujeito com mais de trinta anos de desgaste encarar adversidades assim. Muitos falaram que a parada foi por ele estar se sentindo mal. Fora isso, parece que ele também não conseguiu escutar o retorno do som ao longo de todo show, o que dificulta absurdamente sua performance. Após a apresentação, em breves palavras que tive com ele, Sy foi direto e claro. "Foi muito difícil', com aquela voz que atesta isso. 
      Depois de um refresco, a banda retorna. Contract in Blood e Thrash Till the Death fecham o disco. Então vem uma breve passagem por outros momentos da banda. A sensacional Killing Peace representa o retorno da banda a ativa, sendo muito bem recebida pelo público já ligado no 220. Ai o baile fecha com o clássico máximo Onslaught (Power from Hell), com todos cantando cada verso e agitando bastante. Vendo sets recentes, algumas coisas acabaram cortadas, mas a banda fez além do possível naquela situação. Tocando, foram de um profissionalismo admirável, sem errar uma nota.
      A noite ainda seguia com as aberturas, mas acabei retornando para casa pelo peso do horário. Ver um show do Onslaught no Rio de Janeiro foi um feito, mas que todos merecem coisa bem melhor que o Planet Music, não há dúvidas!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

RAMONES - LEAVE HOME

     Lá se vão 40 anos do ano definitivo para o Punk Rock. Para tal, um fato foi fundamental - o lançamento do 1o disco do Ramones em 1976. A famosa turnê da banda pela Inglaterra pouco tempo depois se mostrou uma das mais importantes da história do Rock. Isso porque alguns presentes fizeram uma revolução musical no dito ano graças ao pioneirismo dos Ramones. Não a toa, gente como Sex Pistols, The Damned e The Clash estrearam com tudo em 1977. Mesmo com certo nome na Europa, a banda de Joey, Dee Dee, Jhonny e Tommy ainda não tinha alcançado vendas espetaculares - vale dizer que eles tentaram isso por toda a década de 80. Ainda assim, sua importância e influência é incalculável. Num fenômeno curioso, certamente se estivessem vivos e ativos nos dias de hoje, tocariam em estádios. 
        Nos primeiros dias desse ano magnífico, era hora de soltar o segundo trabalho. Não houve nada de "inovador" em relação a estreia, algo que não era necessário. Temos sim mais uma coleção de ótimas músicas de três acordes em dois ou três minutos de duração. Tome clássicos eternos como Gimme Gimme Shock Treatment, Carbona Not Glue, Oh, Oh, I Love Her So, Pinhead (Gabba, Gabba Hey!), Commando e You're Gonna Kill That Girl. Qualquer Punk que se preze sabe cantar todas de trás para frente. Outra que merece ser lembrada é California Sun, um cover daqueles que a música é tomada de assalto e vira definitivamente um clássico que ninguém sabe que foi feito por terceiros. Enfim, se trata de um dos discos definitivos dos Ramones, numa coleção de grandes músicas. 
      Mesmo com o reconhecimento internacional, os Ramones seguiam tocando em clubes e tentando a todo custo o sucesso comercial. O tempo faria justiça a esse gigante. Seja como for, Leave Home é um dos discos mais importantes não só da banda, mas de toda a história do Rock.