sexta-feira, 28 de abril de 2017

SHOW DO SUICIDAL TENDENCIES - IMPERATOR - RIO DE JANEIRO

    Em algum dia daquele velho Imperator noventista, Slayer e Suicidal Tendencies faziam um show eternamente lembrado por quem viveu aquela época. De alguma forma inexplicável, a dupla se une mais de vinte anos depois no mesmo lugar. Dave Lombardo, uma eterna instituição do Slayer, junta seus dotes de maior baterista da história do Thrash Metal a uma lenda chamada Suicidal Tendencies há imprecisos dois anos. Esse é aquele tipo de casamento que é maravilhoso para todos. Lombardo estava precisando retornar a um gigante desde aquela estranha saída da banda que ajudou a fundar. Já a trupe de Mike Muir precisava de uma injeção de ânimo também depois de tantas trocas de formação. O público não preciso nem falar que simplesmente pirou. Dai veio o bom  World Gone Mad, lançado ano passado, e mais uma série de shows no Brasil.
     Para tal, um Imperator que no início da noite dava ares de incômodo vazio logo viu um ótimo número de bandanas e camisas pretas tomando conta da pista. Antes disso e ainda muito vazio, a abertura ficou por conta de um tal de La Raza. Veja bem, não é minha ideia esculhambar uma banda brasileira que batalha num underground tão complicado, mas o fato é que ao menos aos meus ouvidos seu som não agradou nem um pouco. Um New Metal com fortes doses de Hardcore e Rap formam uma verdadeira confusão sonora. O vocalista até parecia uma figura legal e comunicativa, mas não o suficiente para ganhar o público. Enfim, prefiro não me alongar muito em relação a isso.
      Por volta das 21:40, a pista já bem cheia estava pronta para receber as lendas Mike Muir e Dave Lombardo, agora acompanhados pelo já veterano Dean Pleasants na guitarra, Ra Díaz no baixo e Jeff Pogan também na guitarra. O baile começa com o hino máximo You Can’t Bring Me Down. Não precisa falar que de cara a casa veio abaixo né? A música foi bem alongada com altas doses de improviso, algo comum ao longo da noite. Mike se encontra numa forma vocal muito interessante, e ainda se movimenta no palco como garoto. Já o instrumental não errou um mínimo detalhe toda noite! Aquele baixo sempre forte, agora ao cargo de Diaz, é a base de tudo. Um Lombardo totalmente solto e adaptado ao som da nova banda era um show a parte! Ai a pancadaria  I Shot Reagan é um dos momentos mais devastadores de toda a apresentação. Nesse clima, a nova Clap Like Ozzy ganha muita força. Poucas vezes vi uma apresentação tão precisa em cima de um palco. Mike direciona um discurso político sobre o momento atual no Brasil e no mundo para arrematar o público de vez. É  a deixa perfeita para Freedumb, do disco de mesmo nome justamente lembrado. Vale lembrar, é o 1o de Dean como guitarrista da banda - hoje muito solto no papel de 2o membro mais antigo da atual formação. Trip at the Brain, mais um clássico do sensacional How Will I Laugh Tomorrow When I Can't Even Smile Today, coloca o Imperator todo numa roda daquelas. Get Your Fight On! é a outra nova a dar as caras. Living For Life seria a outra, mas no final foi limada do setlist - sendo assim a única diferença para o que a banda vem apresentando ao longo da tour. 
       Ai War Inside My Head forma a maior roda da noite até então. Sem dar um tempo mínimo para o público respirar, Subliminal devasta todos numa versão ainda mais porrada do que o clássico registro na estreia do Suicidal. Send Me Your Money chega quase como uma balada depois de tanta devastação, naquele inigualável funkeado que a banda sabe fazer como ninguém. A letra é também de sabedoria única. Ai Mike convoca os fãs para subirem no palco ao seu lado, e o que vimos foi uma zona maravilhosa. Obviamente não ia perder a oportunidade de olhar a bateria de Dave Lombardo tão de perto, e interagir com a banda toda de forma única. Difícil descrever a sensação de subir no palco de um show assim e por alguns minutos sentir exatamente o que eles sentem. Nesse clima, os clássicos Possessed to Skate e I Saw Your Mommy brindaram os sortudos fãs ali presentes. Depois de organizar a bagunça, o baile segue com Cyco Vision. Ai  How Will I Laugh Tomorrow, para mim a melhor música da carreira do Suicidal, ganha uma versão inspiradíssima como exige. Aquele show de solos, partes lentas e pesadíssimas em 6 minutos que representam o auge da banda quase fazem meu pescoço ir pro espaço! Ainda do mesmo trabalho, Pledge Your Allegiance fecha a conta com mais uma invasão minha e de vários presentes para cantar ao lado de Mike Muir. O famoso coro de ST foi puxado, e a noite fechada com chave de ouro! 
        O Suicidal Tendencies promoveu um dos shows mais impressionantes que já vi. Com um set aparentemente curto, as versões foram trabalhadas e apresentadas de maneira impecavelmente pesada. A humildade única dos caras se via do primeiro ao último minuto. com todos entregando brindes aos fãs depois do show. Para mim, o guitarrista Dean Pleasants entrega uma palheta praticamente em mãos já com o palco sendo desmontado. Era o fim de uma noite gloriosa para o Hardcore no Rio de Janeiro. Que essa nova fase fantástica do Suicidal se prolongue, a boa música precisa disso!

terça-feira, 25 de abril de 2017

SHOW DO RAIMUNDOS - CIRCO VOADOR - RIO DE JANEIRO

     Assistir show do Raimundos no Circo Voador é quase uma tradição rockeira no Rio de Janeiro. A banda que há mais de 20 anos faz história no Hardcore com peculiar toque de Forró do país, marca presença na lona sagrada pelo menos 2x por ano desde que voltou a se estabelecer com a nova formação no cenário. Assim sendo, e levando em conta que Cantigas de Roda já foi lançado há três anos, é fundamental inovar no show para motivar o sempre fiel público. Isso não vinha acontecendo nos últimos shows. Dono de uma discografia rica em ótimos momentos, Digão, Canisso, Caio e Marquim vinham fazendo praticamente um  "ctrl c ctrl v" desde a comemoração de 20 anos em 2015. Reflexo disso era um Circo ainda cheio, mas um pouco menos do que em jornadas mais recentes. Felizmente uma mudança forte no setlist aconteceu, com sábias inclusões de verdadeiras pérolas da carreira da banda. O resultado foi uma das melhores apresentações do Raimundos desde que voltou com força total ao mercado. 
       O aquecimento foi uma ótima sacada. Hey Ho, Let's Go, uma trupe de instrumentistas de sopro e percussão, tiraram alguns clássicos eternos do Rock num instrumental super original. O resultado foi diversão geral. Para completar, em meio ao show eles foram para a pista do Circo, e ai que pegou de vez. Todas entoavam as letras de coisas como Smoke On The Water, Paranoid e Highway To Hell se divertindo, e para completar, com o palco já se adiantando para a atração principal da noite. 
    Lá pela 1h da madrugada, o Raimundos estava no palco do Circo encontrando o cenário tradicional. Aquela roda firme comendo solta do início ao fim da noite. O início parecia mais uma repetição. Ainda assim, uma repetição das boas. Sempre é agradável ouvir Puteiro em João Pessoa, Bê a Bá  com leve toque de Slayer e a pedrada Nêga Jurema - todas diretamente do 1o grande disco da banda. Ai veio a 1a mudança de script. Simplesmente Bonita senhores, um dos grandes momentos do sensacional Lapadas do Povo. Para fechar um começo de show irretocável, nada melhor que dar um pulo no Lavô ta Novo com Opa! Peraí, Caceta. O ingresso estava pago! Então a banda decide voltar para o trabalho mais recente. Baculejo é um dos ótimos momentos do Cantigas, e já está no coração dos fãs. Obviamente nada comparado ao hino O Pão da Minha Prima, que sempre coloca os presentes para pular no seu ritmo único. Com um som simplesmente perfeito para proporcionar ao mais que entrosado quarteto uma performance sempre correta, é hora do grande momento da noite. A espetacular Sereia da Pedreira, raríssima nos shows da atual fase, mata qualquer verdadeiro fã da banda do coração. Para aqueles de ocasião, vem a mais que manjada Mulher de Fases, seguida da igualmente batida A Mais Pedida. O legal é que dessa vez a banda decidiu dar um certo intervalo naquelas 5 ou 6 mais "calmas" que costumam vir em sequência. Com isso, Gordelicia vai se estabelecendo como a principal do trabalho mais recente. A insuportável Reggae do Manero acaba compensada com o que vimos até ali, sendo mais um momento para merecido descanso do formigueiro.
     Ai a coisa esquenta novamente com a maravilhosa Esporrei na Manivela - precedida de uma lembrança para o aniversário do baterista Caio. Ai mais uma novidade da as caras, dessa vez a pedrada Rapante - mais uma do 1o disco da banda tocada com sangue nos olhos. Com a 5a marcha engrenada, Palhas do Coqueiro promove um wall of death de respeito na pista do Circo Voador. Vida Inteira chega com uma importante lembrança de Digão. A música é uma versão inspiradíssima para o clássico samba de Arlindo Cruz, que se encontra internado por problemas cardíacos. Digão lembrou sua gentileza, que além de liberar a música, permitiu até porcentagens para a banda. É sempre bom lembrar que a boa música não se limita ao nosso seguimento, tendo em outros estilos verdadeiros gênios. Além disso, roqueiro trevoso que deseja morte de um artista de outro estilo se achando superior é um ser humano digno de pena. Lembra quando disse que Sereia da Pedreira foi o grande momento da noite? Então esse próximo número pode dividir com honras o posto. Cintura Fina é tocada pela banda pela 1a vez na cidade em toda essa sequência de shows. A letra genial num Hardcore daqueles presente no lado c da estreia deixa qualquer fã incrédulo! Então as batidas  I Saw You Saying (That You Say That You Saw), para mim a melhor dessa leva, e Me Lambe ficam até de bom tamanho. O clássico cover para 20 e Poucos Anos de Fabio Jr sempre causa grande efeito. A tradicional e indispensável Deixa Eu Falar encerra o tempo regulamentar.
     Para o bis, Canisso sobe sozinho para o rap genial Boca de Lata. Ai um Raimundos em dia inspirado fecha a conta com os clássicos Tora Tora e Eu Quero Ver O Oco - a maior roda da noite. Foi um show surpreendentemente magnífico como há tempos o Raimundos não proporcionava. Prestes a divulgar no palco do Brasil todo seu novo DVD acústico, o show do Circo foi anunciado como despedida temporária das guitarras. Obviamente não poderia ser diferente da apresentação irretocável apresentada aos cariocas. É possível sim agradar a turma mais mainstream com sons batidos e fazer a festa da turma do hardcore - esses sim os que não perdem um show - com uma discografia da grandiosidade daquela apresentada pelo Raimundos. O Circo Voador viu mais uma grande noite, num casamento sempre perfeito. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

WHITESNAKE 1987

    Com uma alma no Blues e doses do Hard Rock direto a moda setentista em seus primeiros lançamentos, o Whitesnake ganhava corpo a cada trabalho. A banda sempre teve no vocalista David Coverdale um líder, e praticamente como tradição as mudanças de formação - algo que nunca causou grandes estragos na música. Nesse ponto, arrisco a dizer que é a banda com mais trocas na história do Rock, ou algo próximo disso. Em 1987, a banda chegava com a obra-prima Slide It In ditando o ritmo da década e uma tour mundial que teve até o lendário show no primeiro Rock in Rio. O que fazer agora? Muito simples, apenas lançar seu clássico absoluto e um dos discos mais importantes da história do Hard Rock. Whitesnake 1987 não é um simples disco, mas sim uma verdadeira coletânea de grandes hinos do Rock N'Roll, indo das baladas até a porradaria mais direta em meio a uma aula de John Sykes (guitarras), Neil Murray (baixo) e Aynsley Dunbar (bateria) - acompanhantes do chefe na nova missão. 
       Quer baladas mais Hard oitentista possível? Aqui tem Is This Love, que é talvez a mais conhecida delas. Looking for Love e a nova roupagem para Crying in the Rain não deixam por menos. Ai está com vontade de ouvir uma aula detalhada de Rock N'Roll em solos de tirar o fôlego e interpretação vocal digna dos grandes? Toma a magnífica Still of the Night para bater cabeça durante seis minutos no auge da carreira de Coverdale. Agora porradas bem dadas no melhor que o Hard Rock verdadeiro proporciona, nada melhor que a irresistível Bad Boys, a mais que clássica Give Me All Your Love e Children of the Night. E nada melhor que o hino definitivo Here I Go Again numa versão muito melhor que a lançada pela banda anteriormente para matar de vez o coração de qualquer fã. Notou que eu só citei clássico até aqui não é? Pois bem, agora essa verdadeira obra-prima ainda nos oferece mais! Don't Turn Away, uma das melhores e mais trabalhadas do Whitesnake, Straight for the Heart e You're Gonna Break My Heart Again fecham a conta de um daqueles discos que te faz pirar a cada segundo! 
        É muito complicado falar sobre uma obra irretocável. Whitesnake 1987 é uma dessas, e completa 30 anos ainda criança para os fãs da banda. O disco passou a ser base para qualquer show até os dias de hoje, já que apresenta simplesmente um apanhado de clássicos. Se você conhece bem o estilo, já tem esse repertório na ponta da língua. Mesmo assim, não custa lembrar sua relevância nesse grande aniversário de trinta anos!


quinta-feira, 6 de abril de 2017

ROCK IN RIO: ENTRE ALTOS E BAIXOS, UM SALDO POSITIVO NAS ATRAÇÕES PRINCIPAIS

    Falar do Rock in Rio sempre desperta paixões e diferentes visões entre os fãs de Rock no país. Muitos sabem, mas nunca é demais lembrar que o nome do festival não remete apenas ao estilo, mas sim ao termo "festejar" em Inglês. E sim, atrações de outros estilos se fizeram presentes desde os primórdios. Já falei também aqui, mas não custa repetir que a realidade do mercado no estilo em 1985 e 1991 era completamente diferente - tanto nas paradas de sucesso quanto no número de gigantes em ação. Não pretendo me alongar muito, então vamos direto ao que interessa - a edição de 2017 do evento. 
     O festival promoveu suas bizarrices tradicionais e cometeu erros graves. É duro ver apenas o Sepultura representando o Heavy Metal no Rock in Rio, e isso como uma atração mais que manjada por lá. Se os Headlines do estilo que carregam 80 mil pessoas num dia talvez se limitem a nomes como Metallica, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, System of a Down e quem sabe Judas Priest bem "auxiliado", nada impede que outros nomes componham o cast. Ao invés disso, foram chamadas atrações que até tem valor no seu estilo, mas que não combinam nem um pouco com o público que nomes como Aerosmith e Guns N'Roses carregam. De interessante entre os brasileiros, vi apenas o Ney Matogrosso com Nação Zumbi tocando Secos & Molhados e Titãs. Fora isso, uma coleção de nomes como Capital Inicial e Jota Quest (que tortura para o pobre fã do Bon Jovi!), mais manjados no festival que o especial de fim do ano do rei Roberto Carlos na Globo, e as tradicionais bandas "pagas" que o público não sabe de qual buraco saiu. Se tem dúvida, procure a entrevista do Doctor Phoebes assumindo a prática que rendeu para eles aberturas de, pasmem, Black Sabbath, Aerosmith, Guns N'Roses e Rolling Stones, além de participações no Lollapalooza, Monsters of Rock, Maximus e o próprio Rock In Rio. Isso são os que lembro agora, mas garanto que tem muito mais! Enfim, em relação ao palco sunset e shows brasileiros, o Rock in Rio de 2017 foi um desastre. Para não falar só em erros, um nome merece todo destaque do mundo entre os shows do dito "Palco secundário". Alice Cooper, que dispensa maiores apresentações, promete uma bela parceria com o não menos genial Arthur Brown.  
       Claro que erros também aconteceram em relação a bandas gringas. Submeter os fãs de Red Hot Chili Peppers a uma banda como 30 Seconds to Mars e o fã do Aerosmith a Fall Out Boy é brincadeira de péssimo gosto! Incubus também passa longe de me agradar, mas não chega a esse nível. Já Tears For Fears também não faz minha cabeça, mas respeito sua história e vejo como bem pertinente sua participação no dia do Bon Jovi - em que pese o lançamento de apenas um disco nos últimos 22 anos (!). Neste mesmo dia, a presença do Alter Bridge foi uma grata surpresa. Enfim, vamos falar do grande gol do Rock In Rio.
      Nesse ano, o acerto está na dupla de atrações principais de cada dia. Destaco entre todas os inacreditáveis shows do Def Leppard e The Who no Brasil, feito que só o senhor Medina é capaz de realizar. Fora eles, Offspring também faz uma bela dupla com o sempre interessante Red Hot Chili Peppers. Aerosmith E Guns N'Roses apareceram aqui ano passado mesmo, mas nunca fazem feio. Dois shows espetaculares com satisfação garantida! Já o Bon Jovi passa por um momento péssimo em estúdio, e no palco mesmo já esteve bem melhor em tempos recentes. A ausência de Sambora pesa demais, mas a história de uma banda com Slippery When Wet e New Jersey no currículo faz valer um pingo de esperança de vermos o senhor Jon, atualmente mais dono do que nunca,  numa boa jornada. Vou arriscar nessa. Em resumo, ótimos nomes para comandar o palco mundo, e erros em atrações menores, que coisas como The Who e Def Leppard minimizam. Do primeiro fim de semana, não pretendo comentar. O festival promove misturas, e de outros estilos, vale lembrar que Lady Gaga por exemplo é uma moça talentosíssima! Num total, quatro dias de Rock com grandes bandas em todos já vale a edição. 
      Entre erros e acertos, o crédito do festival em 2017 é positivo na minha avaliação. Será que em 2019 os erros serão corrigidos? Duvido muito, o festival segue uma linha muito clara de bizarrices desde sua fundação. No final, me resta agradecer a mais alguns sonhos realizados por esse festival que promove desde 1985 uma revolução no mercado brasileiro de shows. 

sexta-feira, 31 de março de 2017

DEF LEPPARD - ADRENALIZE

    Poucas bandas enfrentaram tantos problemas em seu auge como o Def Leppard. Depois de ver seu baterista Rick Allen perder um braço e ainda assim dar seu jeito de continuar tocando, a resposta veio com o magnífico Hysteria. Qualquer um que conheça minimamente a história da banda sabe do enorme impacto causado por esse disco. Com tudo mais ou menos no lugar, veio a trágica e precoce morte do magistral guitarrista, e também principal compositor,  Steve Clark. Isso ocorreu justamente no processo de composição de Adrenalize, adiando bastante seu lançamento - que acabou acontecendo no dia 31 de março de 1992. Várias de suas músicas ainda contam com o toque de gênio do senhor Clark como compositor, mas na gravação do disco coube a Phil Collen se esfolar sozinho na guitarra - papel feito com brilhantismo. Obviamente isso não duraria muito tempo, e Vivian Campbell foi recrutado pro posto já na turnê de divulgação.  
     Com todo esse contexto brevemente relatado, uma coisa é inegável. Adrenalize apresenta o último grande momento do Def Leppard em estúdio. Já numa época de domínio do Grunge em detrimento do Hard Rock praticado pela banda, o ótimo lançamento conseguiu grande repercussão. Pode não ter a quantidade absurda de clássicos dos antecessores, mas apresenta grandes músicas. Let's Get Rocked é o clássico definitivo eternizado no trabalho. Um refrão mais que marcante viu cada verso seu ser transformado numa espécie de grito de ordem para os fãs da banda. Heaven Is é uma daquelas que tem o toque de Clark mais que evidente. Um hardão daqueles irresistíveis que a banda sabe fazer como poucos. Make Love Like a Man, a balada Tonight, I Wanna Touch U e a sensacional Stand Up (Kick Love into Motion) são alguns dos bons momentos de Adrenalize, um legítimo disco do Def Leppard. 
      O tempo fez desse disco o último momento glorioso da história dos ingleses mais americanos de todos os tempos. O sucessor Slang foi constrangedor, e apesar de ter seu valor, Euphoria não consegue fazer sombra aos clássicos oitentistas. O resto é história, mas o certo é que o baque da morte de Clark foi insuperável no estúdio, ainda que a Vivian Campbell seja um magnífico substituto no palco e com um peso histórico que prova ser o homem certo para a ingrata missão. Basta lembrar que o homem gravou com Dio seus maiores clássicos. Mesmo assim, a banda ainda se mantém forte, e chega em pleno 2017 no Brasil para seguramente fazer um show daqueles dignos de serem lembrados por gerações. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

SCORPIONS - BLACKOUT

     Depois de mudar sua sonoridade com o extraordinário Lovedrive e dar uma sequência muito interessante em Animal Magnetism, o Scorpions passou por poucas e boas antes de lançar o que é hoje um de seus maiores clássicos. Mais especificamente, o vocalista Klaus Meine foi o grande afetado com problemas sérios na garganta. Muitos duvidavam que uma das maiores vozes do Hard Rock conseguiria se recuperar, mas o fato é que ele parecia ter colocado cordas vocais de aço na operação a que foi submetido. O resultado foi um clássico atemporal, e até hoje sua voz está muito melhor do que a de muitos colegas de geração.  
      Blackout tem a marca do que era o Scorpions nos anos 80. Estabelecido com Klaus Meine (vocal), Francis Buchholz (baixo), Herman Rarebell (bateria), Matthias Jabs e  Rudolf Schenker (guitarra), o experimentalismo setentista, maravilhoso é bom lembrar, ficava para trás em detrimento de um Hard Rock bem mais simples e direto como a década pedia. Uma formula que tinha dado tão certo não precisava de mudanças. Dele podemos tirar hinos definitivos como No One Like You, Dynamite e a faixa-título. Não existe fã de Hard Rock nesse universo que não saiba cantar cada uma delas de trás pra frente. Isso já basta para eternizar o trabalho, mas uma audição mais detalhada nos entrega pérolas do porte de Can't Live Without You, You Give Me All I Need, China White e principalmente a extraordinária When the Smoke Is Going Down. Essa em questão para mim é a melhor do disco e uma das 5 melhores de toda a carreira da banda. Aquele tipo de power ballad que o Scorpions sabe fazer como poucos. Um playlist desses nunca poderia ter resultado diferente da fantástica vendagem e consagração definitiva. Naqueles tempos, o Scorpions garantiu participação nos maiores festivais da época e uma turnê para lá de bem sucedida. Era a coroação de uma era fantástica na carreira dos alemães. 
       Depois de 35 anos, Blackout nunca perdeu sua enorme relevância na história do Hard Rock. É um dos discos mais importantes já lançados pelo Scorpions numa era de ouro. A banda ainda viria a lançar outra pérola dois anos depois que atende pelo nome de Love at First Sting, mas isso é conversa para depois. O importante agora é celebrar o eterno legado de um trabalho como Blackout, um daqueles discos base para entendimento de um estilo de música. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

SHOW DO METALLICA - LOLLAPALOOZA 2017 - SÃO PAULO

     O Lollapalooza talvez seja o festival de música internacional do calendário brasileiro mais polêmico entre o público que curte Rock. No meu entendimento, cerca de 90% das atrações praticam um som que em nada me interessa. Agora uma coisa é inegável. Desde 2012, quando aportou por aqui, o festival apresenta ao menos uma grande banda no cast - não por acaso essa grande banda costuma ser headline. Bad Religion, Pearl Jam, Soundgarden (como me arrependo de não ter visto), Robert Plant, Queens of the Stone Age e Foo Fighters são alguns desses bons exemplos. Em 2017, essa responsa ficou com o Metallica - e com o Rancid também. Finalmente acabei decidindo ir a maior festa Indie do calendário anual, e honestamente, só pretendo voltar em caso muito nobre. 
      Lamentavelmente o problema não era a tal mistura de estilos - que na verdade não me incomoda nem um pouco. Festival por si só é visto como uma mistura de gostos diferentes num lugar só, cabe a cada um escolher o que interessa. A parada é que poucas vezes eu vi uma organização de evento tão problemática. Começando pelo local, o distante e nem um pouco confortável autódromo de Interlagos - e suas ladeiras insuportáveis. Cada detalhe nele obrigava caminhadas para testar a paciência de qualquer cristão. Felizmente o tempo ajudou, já que uma chuva daquelas transformaria aquele lugar num verdadeiro mar de lama. Agora o problema mesmo era para comprar alimentos e bebidas. Nunca vi um atendimento tão caro e precário na minha vida rockeira! Qualquer um que se aventurasse a comprar uma cerveja só conseguia isso enfrentando filas de quase 1h - incluindo breves encerramentos de atendimento no pacote. Vendedores separados eram pouquíssimos, se concentrando apenas na entrada e também com belas filas ao redor. Qualquer um que costuma ir a grandes shows sabe a diferença que eles fazem para quem quer consumir algo. Na área do palco que me interessava, localizado num vale de difícil acesso, não tinha um sequer. Não adianta falar que isso é culpa dos 100 mil presentes, já que em 2011 o Rock in Rio também atendia tal demanda de maneira muito mais eficiente. Enfim, nada no lugar era atrativo, jogando toda a responsabilidade em cima das bandas. Felizmente, elas fizeram valer o ingresso. 
    Metallica e Rancid fechariam a noite no palco Skol - o único que frequentei. O público do festival é muito heterogêneo. Não é aquele de Rock In Rio que vai basicamente ver o Headline da noite. Pela diversidade, tinha de tudo ali no meio. Agora os fãs de Metallica eram maioria absoluta, quase todos com a camisa da banda. O Rancid fez ótimo casamento, e em muitos casos a dupla agradou a um público bem parecido. Eu mesmo nunca fui um grande fã dos Punks debutantes no Brasil depois de 25 anos de espera, mas fui feliz assistir a apresentação.
     Entre um bom tempo na fila e outro na pista, vi uma apresentação fantástica para o que se propunha. Colocando rodas de respeito ao redor do lugar, foi 1h de intensidade total. Destaque para os hits Ruby Soho e Time Bomb. No mais,  Tim Armstrong (Guitarra e Vocal), Lars Frederiksen (Guitarra e Vocal), Matt Freeman (Baixo e Vocal) e Branden Steineckert (Bateria) passaram seu recado Punk com pitadas de Reggae com muita correção, agradando a todos! Para quem realmente curte, foi um show memorável, e até para mim que não conheço quase nada foi interessantíssimo! 
    No intervalo me restou tomar as únicas duas cervejas que arrumei e esperar pelo motivo que me levou até São Paulo. Lá vinha o Metallica, e junto deles uma legião de fãs que tomaram de assalto a festa alternativa. Com o sensacional Hardwired... to Self-Destruct para nos apresentar, James Hetfield, Lars Ulrich, Robert Trujillo e Kirk Hammet chegavam com sangue nos olhos para lavar a alma de todos - incluindo a deles mesmos. O vale distante em meio ao autódromo via ter cada espaço ocupado na hora que essa entidade do Heavy Metal iria tocar. 
      Antes de qualquer coisa, tenho a impressão de ter escolhido o melhor local possível para ver o show. Quem viu na TV sentiu um público bem apático, mas de onde estava, achei a participação muito legal. Rodas homéricas formadas no momento certo, disco novo recebido com muito entusiasmo, hits cantados em uníssono e até um pouco menos de celulares pro alto do que o normal. Enfim, os que estavam ao meu redor mostravam profundo conhecimento sobre a banda que estava na sua frente. Com um atraso muito pequeno, era hora do Thrash Metal dar as caras no festival pela 1a vez em seis anos. 
      Hardwired, a pedrada que abre o novo trabalho, cai como uma luva na abertura também do show. Muita agitação e cantoria provam a força absurda desse magnífico lançamento. Para arrematar, vem a também muito boa Atlas, Rise! - mais trabalhada que a abertura, mas igualmente forte. Como é legal urrar esse refrão matador ao vivo! Ai é hora de voltar no tempo. O primeiro clássico da noite é a indescritível For Whom the Bell Tolls. Um dos maiores hinos da história do Heavy Metal provoca aquela agitação no riff inicial - um dos maiores trabalhos de Cliff Burton - e tem cada verso cantado por milhares de vozes. Ai vem a boa The Memory Remains como única representante dos tempos de Load/Reload da noite. Sempre gostei dela e aquele coro no final é irresistível, mas quando pensamos que a mesma veio no lugar de coisas como Creeping Death, Ride the Lightning e Welcome Home (Sanitarium), para ficar só em algumas consagradas, soa desnecessária. Ainda assim, está longe de ser um peso morto no set. Até aqui já estava provado o estado de graça que se encontrava a banda. Todos estavam visivelmente felizes, e Kirk Hammet sola pela 1a vez na noite fazendo uma esticada no último som e breves trechos de The Judas Kiss - lado c de Death Magnetic. Ai a turma ataca com a magnífica Power Ballad The Unforgiven, um dos momentos máximos do magistral Black Album. Depois de breves toques do passado, é hora do Metallica mostrar orgulhoso mais alguns momentos do novo trabalho. Now That We're Dead tem seu refrão sensacional entoado por muitos, e Moth Into Flame recebe atenção até maior que esperada. Essa talvez seja a nova com efeito mais devastador ao vivo. Infelizmente muitos deixam a pérola Harvester of Sorrow passar despercebida, mas para mim é um dos grandes momentos de todo show. Essa maravilha de ...And Justice for All sempre emociona profundamente quando apresentada ao vivo, num dos pontos altos da noite. Já Halo on Fire não fica tão legal quanto no disco quando é colocada no palco. Ganha vida mais para seu final onde temos uma aula de riffs, mas poderia ser facilmente substituída por Spit Out The Bone, Murder One e Confusion por exemplo. Aqui acaba a participação de  Hardwired... to Self-Destruct no set. 
        Então o grande baixista Robert Trujillo faz o que é quase impossível. Ele transformou um solo de baixo em algo muito legal, coisa que só quem entende muito bem do assunto consegue fazer. Um homem com Suicidal Tendencies, Ozzy Osbourne e Infectious Grooves no currículo realmente não é um qualquer. Em meio a aula, rolaram trechos de  The End of the Line e, pasmem, Anesthesia (Pulling Teeth). A turma old school arrepia até seu último pelo com essa homenagem ao mestre Burton. Ai vem a maior surpresa da noite. Simplesmente Whiplash senhores! Obviamente essa pérola do Kill 'Em All abre de imediato uma roda daquelas para a turma Thrash banguear com gosto. Foi um sentimento único em meio ao Lollapalooza poder relembrar como deveriam ser as noites de 1983 em algum bar da Bay Area. Nessas notamos como o Metallica ultrapassou todas as barreiras possíveis e se transformou num nome de tamanha relevância para encabeçar um cast desses e tomar ele para si. Um Hetfield com sorriso daqueles faz a tradicional introdução para Sad But True perguntando se "queremos peso". Como de costume, arrebenta corações e pescoços! Se não bastasse tudo isso, James tem um ataque de fúria, no melhor sentido possível, tocando sua guitarra no chão como poucas vezes pude ver. A empolgação era visível Tava aberta uma sequência de hinos para ninguém botar defeito. É possível resistir a coisas do porte de One - só com explosões falsas e sem aquele aparato dos tempos de Death Magnetic - e Master of Puppets? Depois de Whiplash a banda parece ter explodido de vez, e até senti uma vontade extra deles de mostrar o verdadeiro Rock N'Roll para quem passava por perto curioso. Kirk faz simplesmente o maior solo que já vi ele produzir, com partes de Leper Messiah e um encerramento quase incendiário nos PA'S. Simplesmente de tirar o fôlego! Ai Fade to Black, maior Power Ballad da história do Heavy Metal, vem devastando corações de qualquer fã. Ta legal? Então que tal Seek & Destroy para fechar a parte regular numa demonstração do auge do Kill 'Em All? Nem precisa dizer que o pogo pegou fogo né? 
       Qualquer fã já estava com seu ingresso pago numa coleção de hits tocados como se deve. Felizmente ainda tinha mais. A seção de pancadaria fica fora de controle com Battery. Nessa duas rodas se juntaram para formar um mosh daqueles, com direito a sinalizador no meio e tudo! Ai a dupla dinâmica Nothing Else Matters e Enter Sandman fecha a conta com um festival inteiro celebrando o legado desse gigante, e os quatro agradecendo profundamente a recepção. Seguramente esse show está entre os grandes do Metallica que já vi. A banda ganhou vida nesse novo trabalho, e chegou até aqui para fazer a diferença no festival. Numa noite de quebra de recorde de público com 100 mil pessoas em Interlagos, o Heavy Metal roubou para si o famigerado Lollapalooza. Que no caso de outro gigante do Rock N'Roll presente no Line Up em 2018, a organização atenda minimamente bem o público que paga um absurdo de caro para estar lá. A grandeza das bandas salvou um festival caríssimo que beirava o amador em estrutura.